[...]
Lembrei que eu me sentia tão viva com você me olhando bem sério e bem no fundo
dos olhos e machucando meu braço. Sim, é definitivamente uma recaída e eu acabo
de decidir que te amo mais que tudo no universo e que amanhã, ou hoje, porque já
são sete e meia da manhã, vou resolver isso. Agora preciso dormir só um
pouquinho.
Volto pra cama. Coração disparado. Não tem posição na cama. O que
eu faço? Não tô a fim de ler, não tô a fim de ver TV. Aquelas outras coisas que
se faz pra acalmar tô com preguiça agora, minha imaginação está indo toda para
traçar um plano para que eu descubra. Descubra o quê? Não sei, mas sei que algo
está acontecendo, ou eu não estaria assim. Porque eu sinto quando ele está com
alguém, sabe? Eu sinto. Sim! A cartomante!
Ligo pra Zuleide. Você atende
hoje? Mas é domingo, Tati! Atende? Só se for por telefone. Tá bom, então joga
aí: ele está com alguém? Mas Tati, você quer mesmo saber isso? Quero, mulher. Eu
preciso saber. Joga aí: ele está com alguma puta? Tati, eu não posso perguntar
isso pras cartas. Pergunta aí: ele tá com alguma piranhuda desgraçada vagabunda
vaca dos infernos? Zuleide pede desculpas e desliga. Preciso do Lexapro mas ele
acabou há semanas, igual meu amor. E agora, de repente, preciso tanto dos dois
novamente.
Você acha que ele está com alguém? Não sei, Tati, eu ainda tô
dormindo, posso te ligar mais tarde? Você acha que ele está com alguém? E se
estiver, Tati, quer ir ao cinema mais tarde? Você acha que ele está com alguém?
Putz, sei lá, homem sempre tá comendo alguém né? Você acha que ele está com
alguém? Tati, do jeito que ele gostava de você? Claro que não!
Chega, chega.
Preciso me acalmar. Pra que isso? Se ele estiver com alguém agora, e daí?
Terminamos não terminamos? Ele e eu não temos nada a ver, certo? Decidimos que
era melhor assim, certo? Eu não tava bem com ele e nem ele comigo, certo? Porque
era bom e tal. Aliás, meu Deus, como era bom. Mas não era bom pra ficar junto,
certo? Então pronto. Chega. Adulta, adulta. Qual o problema se ele estiver
agora, justamente agora, lambendo a virilhazinha de alguma desgraçada? Qual o
problema? Ok, eu posso morrer. Eu definitivamente posso morrer. Chega, vou
acabar com essa palhaçada agora mesmo.
Tomo banho, me visto, pego a bolsa,
entro no carro. Considerando que ele não mora em São Paulo, não sei exatamente o
que eu pretendo com isso. Mas me faz bem enganar o cérebro e fazer de conta que
estou indo atrás da verdade. Na verdade vou só na casa de outro, preciso fazer
qualquer coisa que não seja sofrer, mas não consigo. O outro não conhece Black
Swan, não ri da história da Zuleide, não me aperta o braço.
Volto pra casa
destruída. Sinto tanto amor dentro de mim que posso explodir e bolhas de
corações vermelhos atingiriam o Japão. Quase não consigo respirar. Chega, chega.
Ligo pra ele. Ele não atende. Ligo de novo. Ele atende falando baixinho. Você
está com alguém? Estou. Desligamos. Pronto, agora eu já sei. Depois de um final
de semana inteiro de corações palpitantes, músicas, textos, amigos, danças,
gritos, sensações, assuntos, choros, dores. Agora eu já sei.
O que eu nunca
vou saber é porque faço tudo isso comigo só porque tenho tanto medo do tédio.
Era só isso o que eu precisava saber.
TB

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